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terça-feira, 15 de agosto de 2017

O que virá



Você está sentado na varanda de casa. Nela tem uma rede estendida onde você costuma se aconchegar na companhia de um livro e das plantas que passou a cultivar. É aí onde te vejo. Numa varanda repleta de plantas e no balanço suave de uma rede, sentindo a brisa serena de um fim de tarde enquanto o sol se põe. Aos poucos você aprendeu a se presentear com pequenos instantes de poesia no meio da rotina cansada e isso tem trazido a você a paz interior que os seus vinte e poucos não trouxeram. Sem inquietude e sem pressa, a vida ganhou outro sabor, e os cinquenta chegaram sorrateiros, sem pesar as costas ou cansar os pés. 

Fins de tarde agora te trazem um misto de alegria, nostalgia e esperança. Chegam sempre acompanhados de um sorriso no rosto e um turbilhão de lembranças, algumas felizes, outras nem tanto. É nesse cessar de vozes e acender de luzes espalhadas cidade a fora que você agora realiza preces diárias em agradecimento a tudo o que viveu e conquistou. Natural e intuitivamente você se pega num retrospecto dos anos, respira fundo e sorri.

Você se tornou uma pessoa menos pessimista com o passar do tempo. Descobriu que caminhos pintados de cinza não te levariam a horizontes coloridos, e aprendeu a confiar mais em si e no seu coração. Aprendeu que não existe nada de errado em criar expectativas, desde que razão e coração estejam alinhados em uma mesma sintonia. Claro que, vez ou outra, as batidas no seu peito irão sair do eixo, mas, quem sabe a essa altura, você também tenha aprendido a lidar com as consequências de quando deseja mais do que possam te oferecer. 

Estou por aqui tentando acertar as coisas para você.  Espero que as escolhas que tomarei daqui para frente tornem, de fato, a vida mais leve. Espero que você tenha cruzado fronteiras e que isso tenha te rendido histórias inesquecíveis; que os velhos amigos tenham permanecido e que falar de amor te traga lembranças não de um passado distante, mas de um presente vivo em cores, olhares e afetos. 


Este texto faz parte do projeto Cinco Lados, onde 5 escritores se desafiaram a escrever sobre 15 temas diferentes. “O que virá” é baseado no tema “Uma texto para você no futuro”. Você pode acompanhar todas as outras postagens através destes blogs: Acenda Essa Luz, A Gangorra, Estórias pra Contar e Parede de Sonhos.

domingo, 23 de julho de 2017

Carta para quem ainda é



Eu queria poder mentir e dizer que muito relutei em escrever essas palavras. Negar que tenho pensado em você nos últimos dias – meses e anos - seria entrar em contradição com tudo o que eu venho sentindo aqui dentro. É saudade, eu sei. Mas é uma saudade boa, daquelas que fazem a gente respirar calmo e rir de pequenas bobagens que um dia nos fizeram querer estar para sempre do lado um do outro.

Te escrevo mais uma vez, porque dentre tantos romances e ensaios quase certeiros de uma vida a dois, você foi e continua sendo quem mais me desperta lembranças das quais me alegro em manter. É uma sensação engraçada que, para muitos, pode soar como dependência, mas eu traduzo como amor. E eu nunca neguei isso.

Sempre foi amor, mesmo quando tentei te apagar da memória à força, era amor. E mesmo que os meses passem com a rapidez de um raio e a vida não me traga notícias suas, será amor. Falar de amor pode soar tão piegas, mas depois que a gente cresce e entende do que se trata, pouco importa como se pareça; sentir é a questão.  Mas disso você já sabe. E se hoje eu sei, aprendi com você.

Talvez seja por isso que tudo o que veio depois não tenha surtido tanto efeito assim que passou, por mais importante, bonito e intenso que tenha sido - ou seja lá como eu possa definir. E você não passou, você ainda está, você ainda é. Você permanece no calor de um abraço inesperado no meio da rua, de uma mensagem de “e aí, como vai” e até mesmo nos presentes que ainda enfeitam minha estante.

Te escrevo com o único propósito de reforçar  algo que já foi dito: te amar me fez/faz bem. E me alegro em saber que nossa história de afeto e companheirismo ainda pode ser contada, relembrada e vivida com carinho e um sorriso escancarado no rosto. Quanto à saudade, vou sentindo por aqui até que nos encontremos no meio de um dia corrido ou numa festa qualquer.



Este texto faz parte do projeto Cinco Lados, onde 5 escritores se desafiaram a escrever sobre 15 temas diferentes. O texto “Carta para quem ainda é” é baseado no tema “Uma carta para alguém”. Você pode acompanhar todas as outras postagens através destes blogs: Acenda Essa Luz, A Gangorra, Estóriaspra Contar e Parede de Sonhos.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Não faz sentido esquecer


Não faz mais sentido negar o que sempre esteve claro: nós valemos à pena. É burrice pensar que não deu certo só pelo fato de que chegou ao fim. É burrice empurrar para debaixo do tapete o que ainda resta de nós e apagar as lembranças que construímos e sempre vão ocupar um espaço na minha memória, e na sua também. Valemos à pena até onde nos permitimos, enquanto havia desejos e sonhos.

Já faz algum tempo que eu abandonei a birra que sustentava meu rancor desmedido e impedia que a saudade amolecesse meu coração. Me permiti sentir sua falta, relembrar o que fomos, tirar as fotografias da gaveta, reler as antigas cartas e ouvir aquela música que dizíamos ser  a trilha do nosso amor. Se doeu? Óbvio que sim. A saudade caiu com o peso de uma tonelada de momentos que ficaram para trás e hoje são peças da história que meu coração escreve dia após dia.

Há casos em que esquecer é a melhor saída, mas nosso caso eu quero lembrar com o carinho que preenchia os meus dias quando tudo começou. Quanto aos motivos que teceram a season finale do nosso romance, que sirvam de aprendizado e repousem em letras garrafais na listinha do que precisamos evitar em uma vida a dois. Afinal, é bem verdade que para o amor não existe receita, mas certos ingredientes azedam a mistura e fazem o caldo desandar antes mesmo que o peito se aqueça.

Vou tocando a vida com a maturidade necessária para entender os limites da saudade que hoje cativo. Porque não faz mais sentido evitar as recordações de quando você era meu maior desejo de felicidade. Não faz sentido tentar apagar o que sempre vai existir, ainda que o tempo lapide novas formas, imponha distâncias e novos sentidos para a vida.  Não faz sentido dizer que o felizes para sempre não existe, quando na verdade o “sempre” é tão relativo quanto o próprio tempo.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Meu adeus


Hoje eu me despeço de você, assim mesmo sem bilhete, sem carta de adeus, sem uma olhadela para guardar na lembrança um último sorriso seu. Me despeço por saber que sua falta pesará tanto quanto sua presença hoje me esmaga o peito, assim fria, sem toque ou atenção. Me despeço por amor a mim, por amor ao que ainda resta de puro e sadio, por amor a todo sentimento que guardo e que tanto me dispus a te entregar.

Hoje me despeço dos nossos encontros inesperados no meio da rua, das nossas mensagens trocadas e das vezes que busquei seu número na agenda do telefone e não liguei. Tive medo de perder o pouco que tinha da atenção minguada que você me oferecia, mas que alimentava meus dias de esperança e sorrisos confusos. Mas hoje, ainda confuso, me despeço.

Hoje eu me despeço por estar cansado de pular “Apenas Mais Uma De Amor” sempre que me pegava ouvindo o disco do Lulu; por gostar tanto de você tendo a certeza de que o lugar que a ti reservei na minha vida, não te apetece o olhar e muito menos o coração. Me despeço e, enquanto sigo na tentativa de curar minha ressaca de você, tropeço na vontade de voltar. É que o amor não é como vodka, que faz efeito e depois passa.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Quando parti


Quando decidi partir, busquei em mim a coragem que nunca tive, as palavras que nunca disse e a amargura do amontoado de vezes que fiz do silêncio meu escudo. Foi preciso mais do que um abrir de olhos para perceber que o nosso amor havia se tornado mobília velha acumulada no canto do peito. Mudar exigiu de mim mais do que a força necessária para te carregar nos braços todas as vezes que você se entregava ao sono no sofá da sala.

Quando decidi partir, deixei para trás tudo que já não cabia na mala: nossas brigas, a indiferença de tantos dias corridos e o vazio que ecoava em mim e em você. O amor nos deixou órfãos, de olhos inchados e coração endurecido; rasgou os traçados incertos de cada plano e nos obrigou a um adeus prematuro, sem tempo e vontade para um recomeço, um reinventar de nós.

Quando decidi partir, resolvi não olhar para trás. Anulei o pensamento e estanquei a dor no peito com um suspiro. Talvez você tenha me observado seguir pela rua, quem sabe em prantos ou não, quem sabe com alívio no peito, ou ainda se fazendo de forte para depois desabar, assim como eu faria mais tarde no vazio do quarto.

Quando decidi partir, assinei comigo mesmo um contrato de felicidade, incerto, talvez, mas com a liberdade de tentar e tentar sem arrependimentos. Confesso que busquei a liberdade de uma vida a dois, mas entre sete bilhões de possibilidades, por hora resolvi flertar com o que há de mais instigante: a vida.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Apenas ruído


Demorei tempo demais para acreditar que o amor fosse, de fato, o sentimento maravilhoso do qual se alimentam os poetas. Talvez por isso tenha demorado a gostar de poesia, das suas rimas, métricas e sentidos que nem sempre me faziam sentir. Ainda não sei se acredito no poder transformador de um sentimento que vira e mexe machuca, pesa no peito e faz doer. Mas, de quando em quando me arrisco, acelero as batidas e esqueço que frear as expectativas nunca é demais.

Certa vez você me disse que o problema vive nas expectativas que criamos, mas nunca podou o nascimento dos planos e dos sonhos, daquela viagem no fim do ano, daquela visita de apresentação ao seu melhor amigo. Demorei até entrar de cabeça nesse futuro que nem ao menos havia nascido, mas que já nos enchia de alegria e orgulho. Nossos sonhos, nossos planos, nossa felicidade.

Mas aos poucos a mão do tempo, tão pequena, passou a escrever nossa história em linhas mal traçadas, ultrapassando espaços, ignorando sinais, se esforçando para interpretar nossa caligrafia já borrada de suor e lágrimas.

Demorei tempo demais para perceber que, talvez, eu não goste mesmo de poesia, do amor em rimas nascidos no peito de alguém. Demorei até entender que os versos do seu peito já não rimavam nós dois. Demorei a concluir que o que nascia aqui no peito já não tinha nome, apenas ruído. E quando um dia tudo se fez clarear, levei algum tempo para compreender que o ruído no peito era barulho da saudade que já incomodava o coração.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Gosto bom

Vira e mexe, tudo o que vivemos até então se perde nessa loucura que é o tempo e o seu caminhar. O recente se faz longínquo, porém, presente e ainda intenso. Na verdade, intensidade é a palavra que define nossa história que ainda é fresca, ainda é começo, ainda amadurece. Mas eu já sinto na boca o sabor da fruta mordida do amor cantado por Cazuza, e lambo os lábios, chupo os dedos, sugo você. Gosto bom esse de nós dois. Parece chocolate, parece doce de leite e qualquer outra experiência gastronômica nascida numa noite de terça. É gosto da pele, servida quente sob os lençóis da sua cama. Ou da minha.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Seria diferente com você?

Seria diferente com você? Seria diferente se ao invés de ter largado o computador em cima da mesa, naquele fim de semana sem graça, eu tivesse esperado você chegar de viagem, com a roupa amarrotada, sua cara de cansaço e uma garrafa de vinho nas mãos? Você diz que sim, eu já não sei. Difícil pensar no que não aconteceu, não é verdade? É difícil cogitar o ‘se’ que não veio a ser, mas que nunca deixou de ser pauta para os nossos desabafos numa conversa qualquer.

Diz pra mim como seria se você não tivesse feito charme naquela festa estranha e aceitado meu convite para um drink, uma dança e um beijo. Se não tivesse sumido por tempos incontáveis e retornado com a cara lavada, trazendo nas costas o peso de tantos romances falidos. Como seria se o tempo gasto por você em cada aventura mal sucedida tivesse sido usado naquilo que os nossos olhares já haviam anunciado meses atrás? Diz se valeu à pena esse amontoar de peças que nunca se encaixarão a você, que nunca te completarão e muito menos te farão feliz. Valeu?

E hoje, valeríamos à pena? Como seria voltar atrás para recuperar aquele frescor da descoberta um do outro? Sabe, era ali onde estava toda a graça e vontade de tentar, de segurar sua mão num canto escuro e me fazer seu, de te sentir mais de perto e constatar que poderíamos seguir em frente. Agora, que estamos calejados de tantos desencontros e morremos de medo de dar o primeiro passo, imagina então achar forças para caminhar uma estrada inteira de incertezas.

Talvez um dia, quem sabe, apostaremos um no outro como uma última tentativa; uma última chance de fazer dar certo, de fazer valer. Mas quem saberá? Deus? O destino? O caderno de astrologia? Eu ou você? O certo é que, se o nosso velho ‘se’ vier a ser, saberemos que o tempo é, de fato, cruel, crucial e extremamente necessário.

terça-feira, 20 de maio de 2014

O amor que não coube

Tropeçamos. Já não era sem tempo, já passava da hora. Você interpretou mal aquela história de caminhar juntos e eu simplesmente deixei que fizesse dos meus passos sua trilha. Você abandonou os próprios sapatos jogados num canto do quarto para calçar os meus, fingindo não se incomodar com os números a mais que lhe sobravam no pé, impossível de serem preenchidos até que lhe coubessem. Parecia criança brincando de ser gente grande, vasculhando o guarda-roupa dos pais para vestir-se da experiência e maturidade que só viriam com o tempo. 

Você não quis esperar que o amor ganhasse as medidas necessárias para vestir nossos corpos em desalinho. Não que o amor tenha uma medida perfeita, mas nossos ajustes se transformaram em remendos que se sobrepunham aos nossos desejos de felicidade e querer bem. Era como se estivéssemos envolvidos por uma colcha de retalhos que já não aquecia mais e deixava vazar para fora da cama todo o carinho que tínhamos nas mãos.

Tropeçamos e caímos estabanados no chão, você com lágrimas nos olhos e eu somando apenas mais um machucado que arderia por alguns dias, mas logo entraria para a memória. Você já era, para mim, uma memória recente que se tornaria, com o tempo, meu exemplo absoluto de como não agir, de como entender que a vida a dois, bem antes de ser a fortaleza protetora de duas almas, é um caminhar de passos lentos cheio de obstáculos a serem superados.

Seu amor não me serviu, veio grande demais, enquanto que o meu carinho lhe apertava o coração a ponto de quase suprimi-lo dentro do peito. Me desculpa a falta de zelo, eu não sei fingir afeto. Eu não sei fingir quando me pisam o calo e roubam meu espaço com tantas mãos, braços e segundas intenções forçadas demais. E por precisar de espaço, joguei fora o que não me coube.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Sua birra

Me perdoe a falta de modos, mas quando você vai parar de foder com sua vida? Digo no sentido de fazer tudo errado e descontar os seus e todos os problemas do mundo nas costas de quem tenta te entender e manter-se por perto, sem cobranças. Faz pouco tempo que você mudou a mobília da casa, pintou as paredes, pendurou novos quadros na sala e limpou o quintal. “Ano novo, casa nova. Tudo que não presta fica pra trás a partir de agora”, você disse com um estufar de peitos que me encheu de esperanças de também mudar as coisas por aqui, arrumar o jardim e consertar tudo que o tempo desarranjou.

Mas você acorda no meio da noite e vai tropeçando na quina dos móveis, acumulando novos machucados e despejando a dor de pequenos erros e frustrações em tudo a seu alcance; na visita inesperada no fim do dia ou no telefone que toca sem parar. Sabe, eu te liguei naquela tarde de domingo pra te avisar sobre aquele filme que ia passar na TV e que você tanto queria assistir. Também te liguei ontem no fim do expediente só pra saber se você estava bem. Em troca, tive o vazio pulsante de um aviso eletrônico intensificando nossa distância e nossos poucos sinais.

Aos poucos, você tem feito de si mesmo uma ilha rodeada de desencantos e esperanças falidas. Mas eu não quero te perder para esse novo mundo de sentimentos que te abraçou. Quero fazer das suas descobertas algo novo também para mim e perceber, na sua voz empolgada do outro lado da linha, a faísca que falta para reacender a fogueira que se apagou aqui dentro.

Você anda parecendo criança com birra, lambuzada de doce e pedindo mais. Mais olhares, mais doces e mais mimos. Chora sem querer notar a barreira de mãos que te protegem, prontas para te segurarem caso caia um dia. Então, desamarra essa cara, escancare a janela. Esqueça que todo começo é complicado e não abra mão do afeto que lhe é ofertado, ainda que tardio. Lembre-se que o tempo pode moldar nossos sonhos, mas ele nunca será capaz de apagá-los. 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Falta calor


A TV não funciona, acabou o café e lá fora chove tanto que nem mesmo os barquinhos de papel que bailavam sobre a enxurrada sobreviveram às fortes gotas. Os livros empilhados ao chão já foram lidos por mim tantas vezes que já não sou capaz de suportá-los. Hoje escoram a porta que teimava em bater e fechar-se ao toque do vento. Insisto em manter as janelas abertas, ainda que sob forte chuva. Insisto em sentir e imaginar que um dia será por elas onde poderei fugir, desejando nunca mais voltar. Elas permanecem abertas mesmo que as chuvas custem a passar e tudo dentro do quarto acabe se encharcando. Coisa pior já umedeceu e meu coração já nem lembra o que é calor.

Calor no coração quando não é ódio, é amor. Há tempos não sei o que significa odiar. Na última vez que praguejei e fervilhei os olhos, havia levado meu dedão do pé direito de encontro à mesa de jantar. Também não sei mais o que é amar e isso é o que mais me inquieta, me aperta o peito e me causa dor. Há tempos, quando me percebi no amor, você ainda estava aqui, parado diante ao fogão preparando seu famoso filé mignon.

Odiar nunca foi meu forte, já amar demais é meu fraco desde que me entendo por gente. Gente boba e sonhadora, por sinal. Gente que acredita no lado bom das coisas, meio Poliana, meio quase pastel. Diferente das janelas meu peito parece ter se fechado e, enquanto chove, eu só observo o tempo que passa, o vidro embaçado e o quarto molhado.

***

Rejeito os livros e os discos do natal passado, eles falam de amores e me lembram você. Mas o vinho, esse eu deixei ficar e repousar tinto dentro de mim.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Pertencer

As chaves caíram sem jeito sobre a mesa de vidro, produzindo um barulho incômodo no silêncio da sala. Passava das três horas de uma madrugada estranha. Havia saído de casa com o coração em chamas, ardendo de aflição, talvez tão vermelho quanto meus olhos que não sabiam mais conter o choro. Soluçávamos. Parecíamos dois inconsoláveis ali no escuro do quarto, armados da dureza de cada palavra que pulava boca afora. Precisei sair. Precisei te deixar por alguns minutos, mesmo que aos prantos. Dessa vez eu não poderia te proteger com um abraço e enxugar seu rosto com as costas das mãos. Nos estranhávamos feito cão e gato e nossa compatibilidade tão natural, naquele momento, havia se tornado incompatível.

Precisei sair. Precisei de abrigo e não era em seu corpo que eu desejava aninhar o meu. Não queria o calor da sua pele, nem o toque dos seus dedos a me massagear a cabeça e, assim, acalmar o coração. Você era fera. Eu era a fera. Ambos éramos a presa. Caímos na nossa própria armadilha e quando o espinho perfurou, doeu tanto que foi inevitável gritar. Gritamos tanto, que a estranheza do silêncio quando cessaram as palavras embrulhou o estômago. Então saí sem nem mesmo me importar com o que vestia, ou se minha cara era de poucos amigos e coração partido. Te deixar foi a solução. A rua me abrigou.

Nunca brigamos. Em todos esses anos, suportamos nossas manias e nossos defeitos, jogando os infortúnios debaixo do tapete, feito pó. Tentamos apaziguar nossas diferenças, pincelando nossas poucas qualidades sobre elas, cobrindo tudo com borrões que nos pareciam convincentes. Bastou a primeira chuva pra tudo escorrer, pelo rosto, entre os dedos, sobre os lençóis da nossa cama. Fizemos tudo errado e ainda brindamos com chá e biscoitos.

Minha vontade era sumir no mundo, tomar o rumo da rua até desaparecer por completo. Acontece que meu sedentarismo não me permitiu ir muito além que duas quadras e, já sem forças pra caminhar, só consegui me jogar num banco qualquer até poder retornar. Me despi de todo e qualquer sentimento. Estava vazio e o vazio me fez voltar. Não fazia ideia de quanto tempo estava ali, de pijamas, sentado ao relento colocando tudo em ordem até não sobrar nada.  Voltei a passos largos pela rua. Tanto vazio dentro do peito já incomodava. Acho que já era falta. Saudade e arrependimento, tudo junto. Ainda assim, algo que se fez necessário; um ponto de luz no fim de um túnel que começava a desabar sobre nós.

Assustei com o barulho que as chaves fizeram quando as joguei sobre a mesa, estragando minha vontade de não me fazer notar. Mas você já dormia e nem sequer percebeu. Já no quarto, te observei por alguns instantes enquanto dormia sob a luz do abajur. Talvez estivesse sonhando ou, quem sabe, seus pensamentos estivessem tão vazios quanto os meus. Apesar da bagunça dos lençóis caídos no chão, o ar já estava mais ameno e respirar já não era tão difícil.

Deitei, ao seu lado e enlacei sua cintura com um abraço calmo. Tocar sua pele me devolveu um velho sentimento de pertencimento. Sim, acredite! Pertencemos um ao outro desde que nos fizemos um só. Te querer bem é meu maior estimulo a prosseguir, ainda que seja preciso derrubar o amontoado de pedras tortas que rodeavam nossa relação.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Carta de espera



Mesa de Jantar, domingo de lua, 62 dias desde que partiu.


Meu amor,


Termino mais um fim de semana com dores nas costas e uma alergia fora do comum. Não se preocupe, já desci até a farmácia e voltei munido de todos aqueles comprimidos coloridos e de formatos diversos que nunca me descem pela garganta numa primeira tentativa. Aproveitei e subi na balança, ciente de que os velhos 65 quilos ainda estariam ali, nem uma grama a mais, nem a menos, como nos últimos cinco anos. As dores se acentuam a cada passo e espirrar já ficou tão chato que esbravejo um palavrão sempre que o nariz ameaça coçar. Às vezes até tento prender  gosto daquela coisa de autocontrole, da sensação estranha que a cabeça vai explodir – mas despejo tudo pra fora e o mundo é que se exploda.

A culpa é sua. Toda e completamente sua. Talvez não houvesse a necessidade de dispensar a diarista, mas eu só queria te mostrar que eu mudei. Pelo menos estou tentando, juro! O cesto de roupas sujas está vazio, já aspirei aquele tapete (chinês?) que você comprou naquele brechó e até aprendi a fazer aquela receita de batatas assadas que você tanto aprovou. Encaixotei as tralhas da garagem, pintei as paredes do quarto, troquei o chuveiro queimado, mudei os móveis de lugar e até abandonei aquela velha mania de deixar a toalha molhada sobre a cama. Tudo em tempo recorde só por você.

Foi difícil viver aqui no último mês. Na verdade, demorei alguns dias até entender seu bilhete de “Preciso de um tempo. Vou visitar minha mãe”. Quatro dias e meio pra ser mais preciso e desde então o que eu tenho feito é te esperar. E nessa espera, compreender o quão infantil eu era sempre que você tentava conversar sério e eu dava de ombros. Entender que você só pedia atenção quando chegava juntinho no sofá e o meu game novo lhe roubava todos os abraços que eu poderia dar naquele momento. Perceber, na falta, o quanto essas tantas pequenas coisas te faziam infeliz e te levaram a procurar por esse tempo que custa chegar ao fim. Lá se vai dois meses e eu aqui, você aí e nada de nós dois.

Mas agora tudo está no lugar: casa e coração. Te espero em cada noite de domingo, pois só com você do lado minha segunda-feira voltará a ser doce como antes e, prontos para um novo começo, recomeçaremos. Te espero na certeza de que não existirão mais motivos para partidas repentinas, dias ruins ou conversas sérias demais. Quanto às dores? Elas passarão.


Com amor,
Seu amor.


Este texto faz parte de um projeto especial do Esquinas com canções de Saulo Fernandes e foi inspirado na música “Tão Sonhada“.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Coração Balão

Você me deixou torto. Assim mesmo, virado pelo avesso, sem ter ideia alguma de como tudo estava de cabeça para baixo mais uma vez. Você fez carnaval no meu coração quando nem era fevereiro. Coisa chata essa que acontece vez por outra, que chega sem pedir licença, e fica, faz morada e te entorta. Você me deixou torto em 140, 200, 525 caracteres diários e três palavras no meio da noite. Eu me deixei entortar, jurando manter os pés no chão, quando na verdade minha sombra já nem se via sobre a terra, tão alto eu já estava.

Eu que tenho medo de altura, sempre me permitir voar. Também foi assim quando me prometeram o céu. Ou daquela vez quando a ideia do “para sempre” não teria fim e as tardes teriam cheiro de brigadeiro de panela. Você não prometeu nada e muito menos seguiu comigo nesse voo sem direção. Segui sozinho com meu coração em batucada, como um folião inconsequente que mesmo aos vinte e dois ainda tropeça nas serpentinas que ele mesmo atira pela rua.

Acho que eu sempre vivi assim, me deixando entortar, fazendo do meu coração um balão inflado dentro do peito, que cresce até estourar. Então de tempo em tempo eu me endireito, desentorto, ergo a cabeça e finjo ignorar essa minha mania de perder o eixo por qualquer boca que me sorri e me morde os lábios, até que, mais uma vez, tudo volta: o carnaval, o balão inflando, o amor torto e unilateral.

Parece que depois de você, desentortar ficou mais fácil. Mas só parece. Desentortar ainda dói e faz nascer aquele sentimento de que a vida nunca vai passar de encontros passageiros e beijos furtivos numa festa qualquer. Ignorar a falta, controlar a ansiedade e tentar ser auto-suficiente são metas diárias que preenchem a agenda por tempo indeterminado até que alguém tire o sentido das coisas novamente.

E se refaço esse estranho ciclo de entorta, desentorta, infla e estoura, eu já nem sei de quem é a culpa: se do coração que nunca aprende a segurar as pontas, ou sua, que teve o dom de me virar de ponta cabeça sem nem perceber.

Esse texto é um projeto especial do Esquinas com músicas de O Grande Encontro
e foi inspirado na música "Coração Bobo"

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Um conselho


Você deveria esquecer que tropeçou, que machucou o dedão e aquilo fez doer. Quando te chamarem pra correr pela rua até o próximo quarteirão, na esperança de encontrar o senhor vendendo algodão doce, não perca tempo procurando seu sapato, muito menos amarrando o cadarço que o manterá firme em seus pés. Permita-se ser puxado pela mão que te espera no portão e não tenha medo de seguir descalço.  Corra e ganhe velocidade a ponto de quase poder voar. Se quiser voar, voe. Mas antes sinta como é bom poder tocar o chão sem aquele medo antigo de calejar, de se cortar e sentir dor.

Perceba que sujar os pés em busca de algo que faça seus olhos brilharem é tão gratificante quanto descobrir, depois de dobrar em tantas esquinas, que o vendedor de algodão doce, por algum motivo, estava esperando por você. Pelo sabor da conquista, aquele algodão será o mais doce e derreterá na sua boca, te arrancando um arrepio gostoso que percorrerá todo seu corpo. Experimente um de cada cor, mesmo que o seu preferido seja o azul-cor-de-céu-aos-domingos.

Você irá se sentir vivo e agradecerá aquela mão que te puxou rua afora, te conduzindo para esse momento de pura satisfação. Agradecerá por ter deixado os sapatos em casa e o medo embaixo dele. Ao voltar, com as mãos grudadas pelo açúcar colorido que restou nos dedos, saberá que o coração já não é mais o mesmo. As batidas descompassadas, pulsantes pelo sangue novo que passeia pelas artérias, irão mostrar o ritmo com o qual deverá conduzir cada sorriso e cada gesto a partir de então.

É, meu caro, jogue os sapatos fora! Esqueça os medos, os planos, os riscos e as velhas promessas. Jogue fora os sapatos e, se a vaidade assim não permitir, escolha os chinelos, mas não se esqueça de esquecê-los por aí na primeira oportunidade que encontrar para sentir-se livre e feliz.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Sobre ser racional


Ainda não sei o que sinto ao perceber estar do lado mais racional de nós dois. Logo eu que sempre vivi à flor da pele, sendo emoção pura a cada instante, ainda não sei em que momento desativei o botão “pulsar” do meu coração e deixei que meus medos criassem uma barreira quase impenetrável para evitar que você se aproximasse, armado de segundas e terceiras intenções. Se te recuso os convites, é pra tentar proteger as boas lembranças que restaram de nós. Ainda que inocentes, percebo a centelha de esperança escondida nos seus olhos, pronta para reacender a qualquer sinal de que minha resposta soe como um sonoro sim.

Eu que nunca aprendi a dizer não, descobri que ficar em cima do muro talvez seja a solução mais sensata para não te machucar. Hoje eu quero estar ocupado o suficiente para que não me reste tempo algum. Quero me esconder atrás dessa barreira que você ajudou a levantar, cercado das tantas obrigações que impus a mim e que me impedirão de aceitar que sua mão segure a minha por debaixo da mesa enquanto o sorvete não chega.

Mais uma vez eu não sei como agir na sua presença, como quando começamos a nos conhecer e minha timidez exagerada não me permitia te olhar fixamente por muito tempo. Hoje eu já não sei se é melhor acreditar que você vai, aos poucos, entender a nossa situação do meu ponto de vista, ou se te ignoro, numa brusca tentativa de fazer com que a ficha caia de uma vez. Logo eu que sempre fui tão coração, não me reconheço ao perceber em mim tamanha vontade de arrancar de você esse restinho de sentimento que eu mesmo plantei; semente de um amor que não brotou.
            

terça-feira, 7 de maio de 2013

Nossa História


       
Faltaram motivos, uma dose de coragem e, quem sabe, um pouco daquela velha esperança que sempre resta antes que o fim seja, de fato, o fim. Acho que ela resolveu partir antes mesmo que cogitássemos a possibilidade de escrever um novo começo. Um re-começo de uma história que começou borrada de euforia, tão turva de expectativas acumuladas anos a fio, que nem se quer nos demos conta de que havíamos dado um passo tão largo, que nos fez subir dois ou três degraus de uma única vez.

Eu queria poder ter uma carta na manga, um truque que fizesse as coisas tomarem o rumo que deveriam tomar quando nos imaginamos parte de um todo preenchido apenas por nós dois. Um truque barato, que seja; qualquer coisa que me fizesse acreditar ser mais capaz e dizer “tudo bem, vai passar”, e sair com você de mãos dadas rumo àquela casinha cor-de-rosa que você tanto insistiu para que visitássemos um dia.

Não fui capaz e não me sinto capaz. Não acredito que querer é poder. Querer apenas é pouco; pouco demais. É preciso sentir. Sentir hoje, amanhã, depois e depois de amanhã e perceber o querer tornar-se um uma necessidade incontrolada a ponto de doer o peito, tamanha a falta. Perdão se meu querer foi vencido pela minha inconstância e essa tal necessidade tenha permanecido nos limites da sanidade. Nossa história não é sobre gostar ou não gostar. Nossa história é sobre perceber que os degraus ignorados por nós fizeram falta, de maneira que nem mesmo descendo a escada mais uma vez seria possível subi-los como um dia planejamos.

Longe de mim parecer insensível, ou egoísta, ou um canalha sem coração. Longe de mim ignorar os bons momentos que passamos juntos e jogar tudo isso embaixo do tapete. Você gravou sua marca em mim da maneira mais sutil e delicada, num reflexo da sua fragilidade que tanto me causou espanto, da qual eu tive medo e não soube lidar. É que faltou coragem em doses exageradas e também uma pitada daquela velha esperança de que o amor um dia iria vingar.

quarta-feira, 13 de março de 2013

A Menina Nua

Adianta o passo
No meio da rua
E segue o cheiro
Da menina nua.
Mas na rua?
A menina nua
Com cheiro de rosa
Rosa branca
De face vermelha
Rosa.
A menina nua
Que anda na rua
Exalando cheiro
Entre o cinza e o opaco.
A menina nua, pela rua
Na esquina virou.

Poema Profundo


Caiu
Num abismo
Profundo
Pro fundo
O Fundo
Fundo
No fundo
Caiu
No fundo
De tão fundo
O breu.

Virtualidades


Entre nós há uma ponte
Um caminho e uma pedra.
Mas te vejo pela tela
Feita de pontos
E de cores digitais.
Eu de cá
E você aí distante
Dois modernos amantes
Num espaço virtual.
E quando formatar a saudade
Não se esqueça da senha
Para acessar meu coração
Compactado.